É estranho como não conhecemos nosso país. De fato, sabemos pouco sobre ele. Sabemos números, estatísticas, mas a maioria das pessoas não quer enxergar a pobreza que vive tão próxima.

Os "gatos" de eletricidade
Nesses dias que eu vim passar no RJ sozinha resolvi fazer algo diferente do tradicional. Resolvi passar um dia na Rocinha, a maior favela da América Latina. Existem vários passeios “turísticos” que fazem esse tipo de atividade e eu fiquei bem receosa quanto a isso, pois, trabalhando em comunidades pela ONG Um Teto Para Meu País em São Paulo, entendo um pouco da realidade dos que vivem em favelas e sei que não se configura em nenhuma atração turística. Ao conversar com a recepcionista do hostel que eu estou hospedada, ela me indicou ir com o Bruno, um morador da Rocinha que costuma levar turistas para conhecer a comunidade, mas não no formato tradicional. Após filmes como Tropa de Elite e Cidade de Deus, a procura começou a aumentar e ele resolveu fazer disso uma renda extra. Talvez os estrangeiros queiram fazer esse tipo de atividade pelos motivos errados, e não sabem como, de fato, essa realidade é dolorosa, pensei eu. Ledo engano meu! Eu sabia os motivos os quais me levaram a querer estar lá, pelo trabalho no Teto eu queria ver as diferenças entre as favelas SP e RJ, conversar com as pessoas, saber o quão organizada uma comunidade carioca pode ser e se existe um trabalho efetivo de ONGs, como a que eu sou voluntária. Afinal, os gringos eram os mais atentos, quer dizer os mais não, pois eu era a única brasileira entre cerca de 30 pessoas que o Bruno estava acompanhando. No meio de israelenses e dinamarqueses, fui saudada com espanto por ser de São Paulo. “Eu já acompanhei umas 3 mil pessoas pela Rocinha nesse último ano. Você é a 75ª brasileira que vem. Eu conto mesmo, porque é raro. Nunca nenhum carioca procurou vir aqui” disse o Bruno. Pegamos uma lotação e fomos até o topo do morro. Antes de entrarmos, o Bruno, que fala inglês, francês e pasmem, hebraico, tudo aprendido por conta própria, nos deu explicações de como funciona uma comunidade e o porquê delas existirem. Uma verdadeira aula de história, para alunos que vieram de tão longe e queriam entender como, um lugar tão maravilhoso esteticamente como o RJ possuía um paradoxo tão nítido, ali na nossa frente. Fiquei aliviada por não estar participando de um passeio do tipo zoológico, em que você entra no carro e fotografa apenas.
Todos participavam das explicações e descobrimos que a Rocinha possui uma população de cerca de 160 mil pessoas, distribuídas entre a Gávea e São Conrado. Ao lado da entrada da favela tem uma escola americana que custa 5 mil reais por mês e extremamente policiada. Mais um exemplo do paradoxo… Crítico, o Bruno que mora lá desde que nasceu discorreu sobre o sistema educacional brasileiro, em que a maioria dos alunos das faculdades públicas estudou em colégios caros, sobre tráfico que prometia uma vida melhor a meninos novos, e as chamadas ”melhorias para inglês ver” do governo nas favelas, como a pintura das fechadas e pavimentação da rua principal. Contou um pouco sobre sua história e do esforço desprendido para aprender línguas e ainda ajudar numa ONG que ensina capoeira lá dentro. Fiquei pensando que se aquilo lá era uma baita experiência cultural para mim, brasileira e que há 1 ano e meio trabalhava em comunidades, imagina para aquele bando de estrangeiro. À medida que entramos na comunidade, as diferenças estéticas com as favelas de SP foram se afunilando, literalmente. As vielas eram parecidas, o sobe e desce idem. Gatos de eletricidade e uma parte bem humilde, com casas de madeira. Fiquei espantada com o tamanho. “Todo mundo sonha em ter casa própria, terreno regularizado, ninguém quer ser favelado. Mas o morador daqui lutou por condições mínimas, temos bancos aqui dentro, que nunca foram assaltados. Temos um sistema de correio próprio. O comércio aqui é muito forte, pois como a favela tem isenção fiscal, os produtos saem 30% mais baratos aqui dentro. Tem coisa ruim acontecendo, como em todo lugar, mas a maioria é gente trabalhadora construindo um lar” me contou meu guia-morador. Segundo ele, o sentimento que predomina nas comunidades cariocas é o de pertencer geograficamente ao Rio, coisa que não acontece em SP, mas não socialmente. Paramos na ONG que ensina capoeira às crianças de lá, e elas orgulhosamente se apresentaram para nós. Tentaram me ensinar a jogar também, mas eu fui pior que os gringos. Conversei com o Manoel, o professor e fundador da ONG, e ele me disse que ensina mais de 300 crianças da Rocinha. Ano passado ganharam uma bolsa e foram para Europa se apresentar. Muitas daquelas crianças nunca tinham ido nem ao centro do RJ. Mais uma vez tive a certeza que a educação, seja ela por meio da arte, pode modificar uma história.
Mais caminhada, mais história da expansão da Rocinha. Paramos e comemos por lá. Falei para o Bruno que me sentia um pouco culpada por estar “invadindo” aquela comunidade, como se fosse atração turística. Ele me afirmou que os moradores estão acostumados com a curiosidade que os cerca. “É bom para quebrar as barreiras, para ambos os lados. Ver que gente é tudo igual por meio desse breve convívio. Esse é meu trabalho. Você está aqui me pagando para eu te mostrar uma coisa que você não conhece, pagando por um conhecimento que não tem. O que você vai fazer com isso agora depende de você. Eu não criei essa realidade, nem você. Conhecer é uma forma de se indignar”.
Bruno nos contou sobre a pacificação nas favelas no RJ, as famosas UPPs, fruto principalmente das Olímpiadas e Copa que estão por vir. Mas que pelo menos estava rendendo bons frutos. Nos falou muito sobre educação e como isso era um ponto que era extremamente falho no Brasil, e que dava o tom para uma vida melhor. Um cara incrível, com um senso crítico que há muito eu não via. Apesar de todo meu receio, posso dizer que valeu a pena meu dia. Não pude de fato entrar na vida dos que moram lá, do mesmo jeito que faço pelo Teto, mas foi proveitoso para o meu repertório. Aos que tem curiosidade, mas como eu, tem receio de “comercializar a pobreza”, afirmo que parte do que você paga pela visita é revertido em projetos sociais para Rocinha. Mas, faço das palavras do Bruno às minhas. Você estará pegando por um serviço honesto que ele oferece. E um bom serviço. Capitalismo também faz parte. Dica importante: não se arrisque a fazer isso sozinho, pois a chance de se perder é grande.

Na ONG Acorda Capoeira, arriscando aprender samba
Acredito que um bom jeito de conhecer o lugar que você visita é vivenciando seu cotidiano, ou, pelo menos, entendendo sua população e onde ela, de fato, vive. Não é o lado mais bonito do RJ, mas uma realidade que está lá. Pode ser o RJ de exportação, tão exaustivamente mostrado em filmes mundo afora. Mas nos esquecemos um pouco das pessoas reais que moram em favelas. Ter a sensibilidade de reparar nelas pode ser um bom começo, para nós, brasileiros, e para os turistas estrangeiros que conheceram mais do que praia, carnaval e futebol.

O RJ sob outro ângulo, visto dos morros. Rocinha entre a Gávea e São Conrado, dois dos mais ricos bairros da cidade.
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